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Entre janelas: Silvana do Vale – Arte do lixo

Um portão cor de rosa no meio de Teresópolis, que dá acesso a um mundo à parte, cheio de novas possibilidades. Foi lá que a gente encontrou a Silvana do Vale, uma artista do lixo, que passa os dias dando uma segunda chance pra todas as coisas que eu e você achávamos que não tinha mais valor nenhum. “Não existe lixo. Tudo pode ser reaproveitado. Você olha uma coisa e pensa: se eu botar uma tinta aqui, um detalhe ali, isso volta a ter vida”.

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É assim que começa nossa conversa, enquanto andamos por um corredor colorido, cheio de salas decoradas pela própria Silvana, e que acomodam todo tipo de material reaproveitado. É como se fosse uma cidade cenográfica e cada cômodo conta uma história diferente. São puffs de caixa de leite, sofás com pneus de carro, lustres de garrafa pet, um abajur feito com coador de café, uma tampa de microondas que vira mesa!

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Silvana é formada em gestão ambiental, é designer de bijuterias, professora de artesanato e técnicas de pintura, e uma artista nata. “Desde pequena, sempre gostei de vasculhar em busca de alguma coisa diferente”, conta. Mas foi em 2005 que ela começou a se dedicar integralmente a esse trabalho. “Foi uma depressão que me trouxe até aqui. Eu precisava fazer alguma coisa, ajudar alguém pra conseguir sair dessa. E me encontrei nesse processo”. A partir dai, ela começou a dar aulas de artesanato no SESC da cidade, além de outros trabalhos como voluntária. Já fez projetos para a Associação das Amigas da Mama; por três anos deu aulas para adolescentes no Juizado da Vara de Infância, Juventude e Idoso, além de trabalhar em projetos em parceria com a prefeitura da cidade por cinco anos. De 2006 a 2011, em grandes eventos, Teresópolis era decorada com os trabalhos feitos por Silvana: natal, festas juninas, Copa do Mundo…

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Há dois anos ela adquiriu o espaço em que hoje funciona o seu ateliê, onde ela passa a maior parte do dia. “Se deixar eu durmo aqui”, brinca. Sua rotina começa bem cedo, quando junto com seu companheiro Victor (o cão lixeiro), suas luvas e um sobretudo customizado por ela mesma, claro, ela sai para recolher materiais pelas ruas. “Muita gente que conhece meu trabalho também deixa muito coisa na minha porta. Às vezes eu chego e já tem sacos de materiais aqui pra mim”. E dali ela segue até o anoitecer, quando, segundo ela, é a melhor hora pra criar. “Sento na minha salinha, e fico aqui, pensando e criando a noite toda. Às vezes você já olha alguma coisa no lixo e tem a ideia perfeita pra aquilo. Outras, eu preciso pensar e pensar sobre o que dá pra fazer. Pesquiso algumas coisas na internet e dali evoluo para uma coisa nova”.

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É impressionante entrar nos cômodos e ver tudo que ela faz ali e como o processo de trabalho funciona. Onde eu vejo uma pilha de garrafas de plástico, ela já vê uma fogueira de São João pronta! Um pouco de papel celofane, luzes, um ventilador e tá pronto! Onde havia apenas um monte de meias velhas, ela fez uma árvore e decorou uma parede estragada por um pedreiro. “Na minha cabeça eu já tenho o desenho pronto. Depois é só executar. E ai o segredo é ter paciência. O artesanato é força do punho, não tem máquina. É só nossa mão mesmo, criando cada peça única”.

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Mesmo com toda a beleza desse trabalho, Silvana conta que ainda é muito difícil viver apenas da renda das peças que cria. “O preconceito ainda é grande. Muita gente ainda vê esse tipo de trabalho como se fosse apenas acúmulo de lixo e não valorizam o que pode ser feito com esses materiais”. Nada disso no entanto, é motivo para desanimá-la. “Eu continuo com os meus projetos e minha meta é poder viver integralmente do que eu faço aqui. Esse é o meu sonho. É o que eu quero fazer”.

E entre algumas lágrimas e muitos sorrisos passamos o dia encantadas com tudo que vimos ali, um pedacinho incrível de um mundo de segundas chances. Um lugar maravilhoso e uma história linda de ouvir e compartilhar.

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Pra entrar em contato com a Silvana, mandar um alô, encomendar uma aula, uma peça, ou só visitar o lugar, é só falar com ela pelo Facebook ou por email: siltereartes@gmail.com .

Fotografia: Mai Portugal  Fotografia 

 

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2 comentários em “Entre janelas: Silvana do Vale – Arte do lixo

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